Holanda: terceiro melhor país do mundo para uma mulher viver. Será??

Foto iustrativa de banco de imagens

No dia 21 de junho de 2020, foi divulgado pela revista CEOWORLD o resultado de um estudo sobre os melhores países para mulheres morarem. A Holanda ficou em terceiro lugar, atrás da Suécia e Dinamarca. E isso me fez refletir sobre muitas coisas, mas principalmente sobre “para quais mulheres morarem?”, e onde fica mãe nessa pesquisa, ou ela não entra dentro do escopo mulher. Sim, resolvi problematizar um estudo realizado com mais de 250 mil mulheres em 156 países diferentes. Porque né, sou mãe, trabalho de casa, e o tempo está sobrando (sobrando?).

Os quesitos que foram analisados são: igualdade de gênero, porcentagem de cargos legislativos ocupados por mulheres, segurança, igualdade salarial, direitos humanos, empoderamento feminino, média de anos de escolaridade, empregabilidade de mulheres acima dos 25 anos e inclusão da mulher na sociedade. Antes de eu apontar minhas questões, gostaria de dizer que sou, sim, uma mulher branca privilegiada, e que moro na Holanda, onde de fato me sinto segura para ir e vir. A minha questão com o estudo é a maternidade, ou a falta deste quesito em sua análise de países.

Na Holanda a maternidade é encarada com muito pé no chão, o que eu acho ótimo. Porém, do ponto de vista do trabalho x licença maternidade, a Holanda deixa muito a desejar. A licença maternidade aqui é de 16 semanas, porém você é obrigada a tirar no mínimo quatro semanas antes da data prevista do parto. Confesso que acho bem bom esse aspecto, quando você já está cansada, ansiosa e tudo mais, você tira essa licença para se preparar, terminar de arrumar as coisas e curtir seu último mês tranquila. Porém, após o nascimento do bebê, você tem apenas três meses de licença. Viu o problema surgindo? Você pode sim, solicitar mais alguns meses de licença, porém não 100% remunerada. 

Então, o que acontece é que com três meses os babies têm de ir para creche, ou ficar aos cuidados de outras pessoas. Isso não tira da minha cabeça que é um dos fatores que fazem com que mais mulheres optem por usar fórmula para alimentar os seus filhos em lugar de amamentá-los. É sabido que nós podemos extrair leite, e fazer a amamentação exclusiva com leite materno até os seis meses de vida do bebê. Você, enquanto funcionária, também tem direito a usar 25% das suas horas de trabalho para extração de leite até que seu bebê tenha 9 meses, mas convenhamos que a amamentação não é estimulada em um país onde as mães devem voltar ao trabalho em três meses. Quem amamenta sabe que amamentação é difícil, e sem apoio ela fica muito mais difícil. Esse é o primeiro ponto que me faz questionar a posição do país no estudo.

Meu segundo ponto é: não há creche pública na Holanda. Sim!!!!! Enquanto as escolas são públicas, as creches são todas pagas e muito bem pagas. Existe, sim, um auxílio do governo para o pagamento de creches que é calculado de acordo com o salário dos pais, pois ambos têm de trabalhar ou estudar para ter direito a esse auxílio. Eu entendo que, através desse método, a desigualdade social é menor, o que é ótimo, mesmo. Quem ganha mais tem de pagar mais imposto e ponto. Porém muitas vezes a mulher volta ao trabalho e seu salário vai quase todo para pagar a creche. E essa prática é estimulada, sendo muito comum ouvir que vale mais a pena a longo prazo voltar ao trabalho simplesmente para pagar a creche, do que sair do mercado de trabalho. Essa prática, normaliza o problema estrutural em questão. Talvez a diferença salarial aqui seja menor, porém as mulheres, em sua grande maioria, ainda ganham menos do que os homens. E aqui eu chego onde eu quero chegar.

Quando você tem de trabalhar para pagar a creche, muitas mulheres optam por não trabalhar e ficar em casa com os filhos. O que eu acho uma opção muito válida se é isso que lhe move, mas eu conheço muitas mulheres que pararam de trabalhar porque não tinham condição de pagar a creche com os seus salários. E aí eu retorno a minha pergunta inicial, é um país bom para quais mulheres morarem??? 

São as mulheres, em sua grande maioria, que abdicam dos seus trabalhos e quereres para cuidar dos filhos. São as mulheres, em sua grande maioria, que colocam em risco os seus trabalhos para dar conta de exercer uma maternidade como elas acreditam que deva ser. São as mães que deixam os seus desejos de lado para suprir uma falta estrutural. Sei que essa é uma questão mundial, planetária… pois mesmo que ambos os pais tenham salários similares, serão sempre as mulheres, em sua grande maioria, morando onde quer que seja, que ouvirão dos seus parceiros que elas estão mais preparadas para cuidar dos filhos do que eles.

A Holanda é um país incrível, e eu sou muito feliz em morar aqui. Mas, na minha opinião, se a Holanda é o terceiro melhor país do mundo para uma mulher-mãe comum viver, como será a condição de vida de uma mulher-mãe comum nos outros países da lista. Ou seja, se fosse levado em consideração a mulher-mãe comum, será que a Holanda estaria em terceiro lugar neste ranking? Se sim, o que estamos, ou melhor, porque seguimos tratando mulheres-mães desta maneira? A Holanda como terceiro melhor país do mundo para mulheres vivem tem ainda muito a melhorar para que não se precise perguntar mais “para quais mulheres?”

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